
Vaidade. Esse poema de fato é lindo, Florbela sabia como ninguém falar da dor que trazemos dento de nós, pelo vazio que muitas vezes temos, pelo nada que muito vezes somos. Helena... ter sentimentos humanos, fragilidades humanas, desejos humanos não é outra coisas senão a afirmação de nossa humanidade. Se nossa natureza fosse de anjo, nasceríamos serafins e querubins, mas não é essa a nossa natureza. Negá-la, é violentar a nós mesmos. É exigir o que não podemos dar. É faltar com a razoabilidade, esse exercício de sentir instintos e desejos para depois tentá-los dominar, é por demais perverso, mas que isso, penso ser doentio. É contrário ao fluxo normal da natureza, existe uma energia em nós que necessita de uma descarga para voltar ao equilíbrio."Do rio que tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem". A impressão que tenho, do pouco que te conheço, é como se dentro de tua cabeça houvesse duas feras a travar um combate feroz e que somente uma delas sobreviverá, e cabe a vc decidir qual sobreviver, mas para você é por demais dífícil escolher qual das duas sobreviverá, pois as duas forças em conflito são por demais fortes em ti. Helena, se não te faço bem, mal também não quero te fazer. A tua angústia não me serve para nada, por isso não vou alimentá-la. Sei que não sou a causa de mal algum, mas também não sei se posso ser algum bem. Estamos no mesmo tempo e espaço físico, mas caminhamos em tempos e espaços psicológicos distintos. O que penso ser bom para nós, é causa de conflitos para ti. Te quero bem e não sei o que fazer para que se sinta bem, para que não se culpe por sentir o que sente, para aceitar a sua humanidade. Não sei o que fazer. Não quero sublimar a nossa história de modo a ser tão-somente seu amigo, embora, reconheço, não seja pouco, mas agora, nesse momento, a gente passa a ser somente a lembrança de uma possibilidade que não se cumpriu. Um beijo, fica com Deus e te cuida.
Helena estava confusa com Paulo e respondeu sem pensar, lembrou de uma citação e exclamou um sentimento que nem mesmo ela sabia o que queria dizer, ela precisava justificar: "É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo". Clarice Lispector. Essa foi a maneira que Helena conseguiu para ganhar tempo e se refazer da dor que sentia. Paulo merecia o seu desprezo, Helena não poupou esforços para arquitectar um fim merecedor para aquele sentir, seria como olhar para o abismo e gritar a dor e o abismo olhar novamente e gritar a mesma dor de volta, nada mais que o eco da dor...
__ O que gostaria de me dizer Helena?
__ Eu consegui entender 54% das tuas palavras.
__ Então entende-me mais que eu.
__ Mas o que você faz eu não consigo entender nem um pouco. Queria reclamar, gritar, chorar... sei lá!
__ Poderá fazer tudo isso, poderá também me beijar, me fazer carinho, me amar... o que gostaria de fazer neste momento?
__ Queria você muito perto de mim, muito perto mesmo...
__ Estou mais perto que imagina, também queria está junto a ti neste momento, poder estender a mão e te tocar.
__ Você desmoronou tudo...
__ Você duvida que te quero, duvida?
__ Não, eu também quero você.
__ Drummond, disse certa vez: " Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for uma certa pessoa, agradeça: Deus te mandou um presente: O Amor". Você sempre me diz que está analisando, ora, só que para analisar tem que perceber fora de algo, do algo analisado. Você analisa o tempo todo, isso é porque não está aqui o tempo todo, não dá para viver e simultaneamente analisar, ou dá? Em psicanálise não. O terapeuta analisa o conflito, por não viver o conflito... ele não se envolve afectivamente com o seu analisado, como pode, fico a pensar, como se envolver e ao mesmo tempo ter o distanciamento necessário para fazer análises? O que tanto quer saber? Não seria melhor tentar sentir a tentar perceber, desde que te conheci, nem um só dia, deixei de pensar em ti.
__ Interessante, eu também, mas o que você não percebe é que o pensamento surge da ideia.
__ O que você não percebe é que tem coisas que não consigo perceber.
__ O quê? Não percebo essas coisas que você fala, mas também não sinto falta delas.
__ Mô... Então porque pensar, imaginar, querer? Não sente falta, então também me dou o direito de não perceber as coisas que você fala.
__ Calma, também não é assim, eu quero você completamente minha, quero amar-te até saciar a minha sede e o meu desejo.
__ Como eu a ti, sim... conheço tão pouco de você.
__ Vou te ver essa semana?
__ Quer me ver?
__ Quero, quero te ver mais, com mais tempo, com mais regularidade, com mais possibilidades, estou aqui contigo, inteiramente contigo.
__ Gosto de ler, ouvir, isso faz parte da minha natureza (amo sentir você dessa forma).
__ Gosto de ser chamado de Mô por vc, é tão único, sinto teu carinho, mesmo quando está a brigar comigo (risos). Se briga e me chama de Mô, vê-se que é uma briga de quem sente carinho, hoje senti você um pouco irritada, brigava e me chamava de Mô... bem, tem outras coisas que estão além do gostar, fazer carinho por exemplo, sinto falta, tenho desejo, é quase uma necessidade, estranho isso, pois até bem pouco tempo você sequer existia para mim. E sabe quando vc passou a existir para mim? Não foi no dia em que nos conhecemos não. Você passou a existir para mim, a partir do dia que permiti a você entrar em minha vida. Só que na medida em que você passa a ter uma existência, eu passo a te desejar, a te querer mais e mais.
__ É... hoje eu percebi que existir na tua vida e nada a coisa é a mesma...
__ Por favor! Já conversamos sobre esse assunto, não vamos ficar voltando a ele o tempo todo, quero deixar claro de uma vez por todas: Eu não te tirei da minha vida, apenas sinalizei um afastamento para vc ter tranquilidade para escolher o que era melhor para você, iria depender do seu silêncio, ou não.
Paulo não sabia, mas Helena já havia decidido o melhor para a sua vida. Eles se encontraram mais uma vez, trocaram juras de amor, mas Helena se despediu com um beijo na boca de Paulo e silenciou para sempre o seu doce e sublime querer. Uma história piegas. Conto ou realidade? O SILÊNCIO...
Van Costt.




